“A noção de valor está no centro da filosofia. Toda a reflexão dirigida à noção de valor, a uma hierarquia de valores, é filosófica; todo esforço de pensamento dirigido a um objeto distinto do valor é, se examinado de perto, estranho à filosofia. Por isso, o próprio valor da filosofia está fora de discussão. Pois, de fato, a noção de valor está sempre presente no espírito de todos os seres humanos. Todo ser humano sempre orienta seus pensamentos e suas ações para algum bem, e ele não pode fazer de outro modo. Por outro lado, o valor é exclusivamente um objeto de reflexão; ele não pode ser um objeto de experiência. Em certo sentido, a lei da vida humana é, de início, filosofar, depois viver, já que a escolha entre a vida e a morte, em uma situação determinada, implica ela mesma uma comparação de valores”.
“…a filosofia não consiste numa aquisição de conhecimentos, como a ciência, mas numa mudança de toda a alma. O valor é alguma coisa que tem relação não somente com o conhecimento, mas com a sensibilidade e com a ação. Não há reflexão filosófica sem uma transformação essencial na sensibilidade e, na prática da vida, transformação que tem um peso equivalente tanto nas circunstâncias mais ordinárias, quanto nas mais trágicas da vida”.
“É assim que a cada instante da nossa vida somos invadidos como que do exterior pelas significações que nós mesmos lemos nas aparências. Também se pode discutir infinitamente sobre a realidade do mundo exterior, pois isso que chamamos o mundo são significações que lemos; consequentemente, isso não é real. Mas isso nos invade como que do exterior; consequentemente, isso é real. Por que querer resolver esta contradição, quando a tarefa mais elevada do pensamento sobre esta terra é a de definir e contemplar as contradições insolúveis que, como dizia Platão, nos arrastam para o alto?”
Simone Weil
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Há, ainda, algo de profundamente coerente entre o espírito deste livro e o próprio método indireto de Kierkegaard. Tal como em sua obra, não se oferece ao leitor uma doutrina a ser assimilada passivamente, mas um conjunto de provocações que exigem posicionamento. Cada capítulo, à sua maneira, convoca o leitor a sair da posição de espectador e a assumir a tarefa, sempre inacabada, de pensar por si mesmo. Nesse sentido, este livro não é apenas uma coletânea de estudos: é um convite. Um convite à reflexão rigorosa, à escuta atenta e, sobretudo, à coragem de enfrentar aquilo que, na filosofia, não pode ser reduzido a fórmulas: a própria existência. Que o leitor se deixe afetar por estas páginas não como quem percorre um território já conhecido, mas como quem se dispõe a habitar uma pergunta, pois, como nos lembra Kierkegaard, compreender não é o mesmo que existir, e é precisamente nesse intervalo que a filosofia encontra sua tarefa mais exigente e mais necessária. (Prefácio)
Jean dos Santos Vargas, Natália Mendes Teixeira e Tales Macêdo da Silva
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“O que é, de fato, a inteligência? A maneira humana de pensar. Foi-nos dada, como o instinto à abelha, para dirigir nossa conduta. A natureza tendo nos destinado a utilizar e a dominar a matéria, a inteligência só evolui com facilidade no espaço e só se sente à vontade no inorganizado. Originariamente, tende à fabricação; manifesta-se através de uma atividade que preludia a arte mecânica e através de uma linguagem que anuncia a ciência”.
Guilherme Ferreira e Bruno Dinis
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“A prostituição é um assunto sensível para a sociedade burguesa porque sexualidade e dinheiro estão entrelaçados. Existem obstáculos à representação de ambos, e quando os dois se cruzam, há uma sensação desconfortável de que algo na natureza do capitalismo está em jogo – ou, pelo menos, não está devidamente oculto” […] “que está em jogo são questões já familiares como a mercantilização da vida humana, a difusão dos imperativos capitalistas, como disse acima, para a “textura das relações humanas” – e a ruptura que Manet causa no regime de significação da vida
capitalista, sendo, portanto, uma ameaça à significação em geral”.
Robert B. Pippin (Tradução de Guilherme Ferreira)
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“A peculiaridade de boa parte da canção brasileira, sua sofisticação formal e poética, aliada ao consumo massificado, com pleno desenvolvimento de uma indústria cultural, aponta para um desenvolvimento sui generis, marcado, desde o início, pelo desejo de forjar uma identidade nacional por meio da cultura e que, no mínimo, problematiza o diagnóstico adorniano.
É tendo em vista o desenvolvimento sui generis da música popular no Brasil que os textos reunidos neste volume traçam amplo horizonte de reflexão, ressaltando ambiguidades inerentes a esse campo de estudos, em que, não raramente, convivem e se mesclam o erudito e o popular, a padronização comercial e a inovação artística de vanguarda.”
Eduardo L. A. Rodrigues, Wesley F. R. de Sousa e Luís Filipe de Lima Andrade
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“Essa capacidade de imaginar o jogo político é o que caracteriza, em certa medida, a experiência democrática. É claro que tal experiência é impossível na Europa do Antigo Regime e, de maneira geral, em toda sociedade na qual a ação política se trama em segredo, depende da decisão privada do Príncipe e de seu Conselho ou de um poder oligárquico. Nestes casos está ausente o poder de apreciar o jogo dos atores e, portanto, de fazer de si mesmo, pela imaginação, um ator virtual. Ora, é justamente isto que me parece sobressair da história da maior parte dos países da América Latina: o povo, na sua grande maioria, jamais esteve no passado em condições de acessar a inteligência da ação política. É como dizer que a fratura foi tão profunda entre, de um lado, o grande número — os camponeses, os trabalhadores, de maneira geral, os pobres — e, de outro, as elites, de modo que não houve a possibilidade de se conceber o que a intriga da política significava.” (Claude Lefort, Democracia e representação, p. 419)
Bruno V. Melo, Eduardo de A. Passos, Ana L. Feliciano, Arthur S. Christo, Fernanda A. Galina e Yago P. Lima
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