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Kierkegaard e a tradição alemã

Há, ainda, algo de profundamente coerente entre o espírito deste livro e o próprio método indireto de Kierkegaard. Tal como em sua obra, não se oferece ao leitor uma doutrina a ser assimilada passivamente, mas um conjunto de provocações que exigem posicionamento. Cada capítulo, à sua maneira, convoca o leitor a sair da posição de espectador e a assumir a tarefa, sempre inacabada, de pensar por si mesmo. Nesse sentido, este livro não é apenas uma coletânea de estudos: é um convite. Um convite à reflexão rigorosa, à escuta atenta e, sobretudo, à coragem de enfrentar aquilo que, na filosofia, não pode ser reduzido a fórmulas: a própria existência. Que o leitor se deixe afetar por estas páginas não como quem percorre um território já conhecido, mas como quem se dispõe a habitar uma pergunta, pois, como nos lembra Kierkegaard, compreender não é o mesmo que existir, e é precisamente nesse intervalo que a filosofia encontra sua tarefa mais exigente e mais necessária. (Prefácio)

Jean dos Santos Vargas, Natália Mendes Teixeira e Tales Macêdo da Silva

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Inteligência e suas múltiplas perspectivas

“O que é, de fato, a inteligência? A maneira humana de pensar. Foi-nos dada, como o instinto à abelha, para dirigir nossa conduta. A natureza tendo nos destinado a utilizar e a dominar a matéria, a inteligência só evolui com facilidade no espaço e só se sente à vontade no inorganizado. Originariamente, tende à fabricação; manifesta-se através de uma atividade que preludia a arte mecânica e através de uma linguagem que anuncia a ciência”.

Guilherme Ferreira e Bruno Dinis

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Após a beleza: Hegel e a filosofia do modernismo pictórico

“A prostituição é um assunto sensível para a sociedade burguesa porque sexualidade e dinheiro estão entrelaçados. Existem obstáculos à representação de ambos, e quando os dois se cruzam, há uma sensação desconfortável de que algo na natureza do capitalismo está em jogo – ou, pelo menos, não está devidamente oculto” […] “que está em jogo são questões já familiares como a mercantilização da vida humana, a difusão dos imperativos capitalistas, como disse acima, para a “textura das relações humanas” – e a ruptura que Manet causa no regime de significação da vida
capitalista, sendo, portanto, uma ameaça à significação em geral”.

Robert B. Pippin (Tradução de Guilherme Ferreira)

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Quadrilogia filosofia da música, vol. 4: música popular

“A peculiaridade de boa parte da canção brasileira, sua sofisticação formal e poética, aliada ao consumo massificado, com pleno desenvolvimento de uma indústria cultural, aponta para um desenvolvimento sui generis, marcado, desde o início, pelo desejo de forjar uma identidade nacional por meio da cultura e que, no mínimo, problematiza o diagnóstico adorniano.
É tendo em vista o desenvolvimento sui generis da música popular no Brasil que os textos reunidos neste volume traçam amplo horizonte de reflexão, ressaltando ambiguidades inerentes a esse campo de estudos, em que, não raramente, convivem e se mesclam o erudito e o popular, a padronização comercial e a inovação artística de vanguarda.”

Eduardo L. A. Rodrigues, Wesley F. R. de Sousa e Luís Filipe de Lima Andrade

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Cem anos de Claude Lefort: a obra se fazendo

“Essa capacidade de imaginar o jogo político é o que caracteriza, em certa medida, a experiência democrática. É claro que tal experiência é impossível na Europa do Antigo Regime e, de maneira geral, em toda sociedade na qual a ação política se trama em segredo, depende da decisão privada do Príncipe e de seu Conselho ou de um poder oligárquico. Nestes casos está ausente o poder de apreciar o jogo dos atores e, portanto, de fazer de si mesmo, pela imaginação, um ator virtual. Ora, é justamente isto que me parece sobressair da história da maior parte dos países da América Latina: o povo, na sua grande maioria, jamais esteve no passado em condições de acessar a inteligência da ação política. É como dizer que a fratura foi tão profunda entre, de um lado, o grande número — os camponeses, os trabalhadores, de maneira geral, os pobres — e, de outro, as elites, de modo que não houve a possibilidade de se conceber o que a intriga da política significava.” (Claude Lefort, Democracia e representação, p. 419)

Bruno V. Melo, Eduardo de A. Passos, Ana L. Feliciano, Arthur S. Christo, Fernanda A. Galina e Yago P. Lima

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“Viver em função de imagens”: moda, magia, subversão

Prefácio de Rodrigo Duarte

 

“Como distinguir uma toalha de banho bege de uma toalha de banho bege da marca Balenciaga? Certamente não seria por suas características estéticas. Esses objetos são praticamente indiscerníveis, não fosse pela logomarca estampada sobre um deles, simbolizando a ação “mágica” operada pelos agentes e instituições de validação da indústria da moda, com o objetivo de elevar uma simples toalha à condição de objeto de culto. O que essa operação sugere é que, por mais distantes que nos julguemos da magia, ainda permanecemos, de algum modo, presos a ela. Está em jogo, porém, não uma questão mística, mas um poderoso mecanismo de criação de valor simbólico que interfere diretamente nas relações sociais. O processo de valorização da moda industrial contemporânea aproxima-se, nesse sentido, da estrutura do ritual mágico tal como descrito por Mauss e Hubert: ambos se fundam numa crença coletiva a priori, ambos operam como cadeias de representações que precedem e condicionam a experiência. E, como toda crença, seu modus operandi exige ocultação: é precisamente essa invisibilidade que garante sua eficácia” (p. 74).

Luciana Nunes Nacif

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