Há, ainda, algo de profundamente coerente entre o espírito deste livro e o próprio método indireto de Kierkegaard. Tal como em sua obra, não se oferece ao leitor uma doutrina a ser assimilada passivamente, mas um conjunto de provocações que exigem posicionamento. Cada capítulo, à sua maneira, convoca o leitor a sair da posição de espectador e a assumir a tarefa, sempre inacabada, de pensar por si mesmo. Nesse sentido, este livro não é apenas uma coletânea de estudos: é um convite. Um convite à reflexão rigorosa, à escuta atenta e, sobretudo, à coragem de enfrentar aquilo que, na filosofia, não pode ser reduzido a fórmulas: a própria existência. Que o leitor se deixe afetar por estas páginas não como quem percorre um território já conhecido, mas como quem se dispõe a habitar uma pergunta, pois, como nos lembra Kierkegaard, compreender não é o mesmo que existir, e é precisamente nesse intervalo que a filosofia encontra sua tarefa mais exigente e mais necessária. (Prefácio)
Jean dos Santos Vargas, Natália Mendes Teixeira e Tales Macêdo da Silva
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“O que é, de fato, a inteligência? A maneira humana de pensar. Foi-nos dada, como o instinto à abelha, para dirigir nossa conduta. A natureza tendo nos destinado a utilizar e a dominar a matéria, a inteligência só evolui com facilidade no espaço e só se sente à vontade no inorganizado. Originariamente, tende à fabricação; manifesta-se através de uma atividade que preludia a arte mecânica e através de uma linguagem que anuncia a ciência”.
Guilherme Ferreira e Bruno Dinis
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“Na referência constante ao pensamento de Foucault no interior da tradição, me parece que se expressa um problema e uma questão que é incessantemente recolocada: afinal, a genealogia pode ou não ser compreendida como um modelo de teoria crítica coerente em si mesmo? Ela precisa ou não de uma complementação ou de uma fundamentação? Qual seria o papel desempenhado pela genealogia na elaboração de um discurso crítico? Em que medida ela seria de fato candidata a funcionar como um modelo para a crítica social? Aqui, procurei abordar o que está em jogo nessas questões a partir das três noções em torno das quais elas se organizam, quais sejam: as noções de crítica, poder e racionalidade. Partindo dessas três noções, procurei entender a maneira como a questão sobre a possibilidade ou não de se compreender a genealogia como um modelo de teoria crítica aparece no interior da tradição. O ponto de partida, como não poderia deixar de ser, é o chamado debate Foucault-Habermas.” (p. 10)
Rodolpho Venturini
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Prefácio de Simeão Sass
“Dizer que o corpo foi inventado teoricamente no século XX não significaria, portanto, omitir definições clássicas anteriores, mas constatar que elas nunca lhe haviam permitido uma posição realmente primária. Na interpretação de Courtine, essa mudança de estatuto ocorreria através da psicanálise de Freud (1856-1939), em sua concepção de que ‘o inconsciente fala através do corpo’ (Courtine, 2011, p. 7); por meio da fenomenologia de Husserl (1859-1938), para a qual o corpo se encontra na origem das significações; e através da antropologia, particularmente, de Marcel Mauss (1872-1950), em sua análise de como as diferentes sociedades servem-se de seus corpos (as várias ‘técnicas dos corpos’). As lutas identitárias do pós-guerra e o trabalho de Foucault (1926-1984), posteriormente, teriam dado força crucial a essa existência teórica. Tudo isso, por outro lado, conectado a mudanças-chave na forma de as pessoas experimentarem ou lidarem com os corpos. Com efeito, ‘jamais o corpo humano conheceu transformações de uma grandeza e de uma profundidade semelhantes às encontradas no decurso do século que acaba de terminar’ (Ibidem, p. 10).
No século XXI, a corporeidade aparece em diálogo com questões de gênero, raciais, ambientais, estéticas, tecnológicas, bioéticas, para citar algumas. Fenômenos como a diversidade sexual, a busca por corpos ‘perfeitos’ através de academias ou procedimentos cirúrgicos, o uso exacerbado e o contínuo desenvolvimento de tecnologias virtuais, a desregrada interferência sobre o meio ambiente, continuam a fomentar o interesse pelo corpo como objeto de investigação, e, por conseguinte, pelo humano, em seus limites e possibilidades.
Jean Carlos Duarte Pinto Coelho
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“Nosso objetivo aqui é elucidar a fundamentação e a justificação pura ou racional (justa ou direita, em termos kantianos) do direito de propriedade na Doutrina do direito através da reconstituição detalhada do argumento kantiano. Muitos dos conceitos basilares apresentados por Kant não foram devidamente explicados pelo autor, o que gera algumas interpretações contraditórias ou insuficientes da teoria da propriedade proposta pelo filósofo, lacuna esta que precisa ser preenchida para o entendimento mais acurado da tese original elaborada no texto de 1797. Pretendemos mostrar que o argumento em prol da propriedade, que determina a possibilidade da posse do meu e teu externo, pode ser restaurado através de sua significação mais condizente com a proposta geral da doutrina do direito, a saber: do direito entendido como uma Befugnis, ou uma autorização da razão prática pura na qual a legislação jurídica atua especificamente sobre a permissão de certas ações – e não na obrigação delas –, transformando o dever em um passo argumentativo ulterior, o qual deve ser entendido como uma consequência analítica extraída da possibilidade dos arbítrios adquirirem os objetos externos de forma legítima.”
André Luiz Batiston
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“A honorável e respeitada escola estoica foi provavelmente a tradição de maior influência no Mediterrâneo do período helenístico grego e imperial romano e dificilmente encontraremos estudiosos dispostos a caracterizá-los simplesmente como loucos (a não ser, talvez, os céticos, claro). Por que então, quando Cavendish propõe uma matéria animada que a tudo pervade, que é dotada de movimento próprio, que é origem última de tudo o que se move e da racionalidade que ordena o cosmos, sua doutrina é desmerecida inclusive de valor histórico e remetida às fantasias incontroláveis de uma mulher insensata? Essa foi uma doutrina defendida, com suas devidas proporções, pelos filósofos mais respeitados do século III, II e I AEC, e dos séculos I e II da era comum, além de ter influenciado pensadores dos séculos subsequentes tendo até uma influência considerável em intelectuais da modernidade”.
Matheus Tonani Marques Pereira
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