Há, ainda, algo de profundamente coerente entre o espírito deste livro e o próprio método indireto de Kierkegaard. Tal como em sua obra, não se oferece ao leitor uma doutrina a ser assimilada passivamente, mas um conjunto de provocações que exigem posicionamento. Cada capítulo, à sua maneira, convoca o leitor a sair da posição de espectador e a assumir a tarefa, sempre inacabada, de pensar por si mesmo. Nesse sentido, este livro não é apenas uma coletânea de estudos: é um convite. Um convite à reflexão rigorosa, à escuta atenta e, sobretudo, à coragem de enfrentar aquilo que, na filosofia, não pode ser reduzido a fórmulas: a própria existência. Que o leitor se deixe afetar por estas páginas não como quem percorre um território já conhecido, mas como quem se dispõe a habitar uma pergunta, pois, como nos lembra Kierkegaard, compreender não é o mesmo que existir, e é precisamente nesse intervalo que a filosofia encontra sua tarefa mais exigente e mais necessária. (Prefácio)
Jean dos Santos Vargas, Natália Mendes Teixeira e Tales Macêdo da Silva
Aceito os Termos de uso e condições.
Este livro reúne textos produzidos a partir da XIX Jornada Internacional de Estudos sobre Kierkegaard, realizada em 2025 no Rio de Janeiro, e tem como eixo a relação entre o pensamento de Søren Kierkegaard e a tradição filosófica alemã. Ao longo de doze capítulos, os autores colocam Kierkegaard em diálogo com nomes como Hegel, Kant, Schopenhauer, Fichte, Marx, Heidegger e Nietzsche, percorrendo temas centrais da filosofia da existência, entre eles a liberdade, a angústia, a decisão, a fé, o desespero e o processo de tornar-se si mesmo. Não há aqui uma leitura única ou conciliadora: cada capítulo explora à sua maneira as tensões e aproximações entre Kierkegaard e essa tradição. Produzida no Brasil, a obra mostra como o pensamento kierkegaardiano continua encontrando novos espaços de leitura fora de seu contexto de origem, e convida o leitor a refletir sobre a diferença entre compreender e existir.
Prefácio
A tensão entre o compreender e o agir: a atmosfera do silêncio na clínica psicológica existencial, por Nicolly da Silva Rebello
Reflexões sobre a vida conjugal em Arthur Schopenhauer e Søren Kierkegaard: diálogo e interseções, por Carlos Eduardo Varella Pinheiro Motta
Um fragmento de vida contido no instante da eternidade, por Lívia Serretti Azzi Fuccio
Kierkegaard e Marx Diante de Hegel: duas leituras da abstração, por Geraldo Antônio Pereira
Contornos da clínica psicológica: diante do humano individual específico, o singular, por Claudia de Loureiro Carvalho
Entre o salto e a autenticidade: disposição existencial e afecção em Kierkegaard e Heidegger, por Paulo Campêlo
Sobre a pesquisa de fontes no caso Kierkegaard-Nietzsche, por Leonardo Araújo Oliveira
A fé paradoxal e o fardo do pessimismo: Kierkegaard em diálogo com Schopenhauer, por Cássia Fernandes
A impossibilidade de um sistema da existência: a liberdade em Fichte a partir de Kierkegaard, por Amanda Cardamone Alves
Modernidade, desespero e fé em Kierkegaard: a tarefa de tornar-se si-mesmo, por Maitê Sartori Vieira
Sintonia na diferença: a arquitetura dialética de Hegel e Kierkegaard, por Tales Macêdo da Silva
A angústia como instante na vida individual: a noção de angústia da falta de espírito no terceiro capítulo de O conceito de angústia, por Danielle de Freitas Barbosa
A infinita diferença qualitativa de Søren Kierkegaard na Carta aos Romanos de Karl Barth, por Michell Platinir Silva Damasceno
Sobre os autores
Jean dos Santos Vargas é doutor em Filosofia, professor do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atua nas áreas de ética e filosofia contemporânea, com pesquisas voltadas ao existencialismo e às relações entre filosofia e raça.
Natália Mendes Teixeira é doutora em Filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), vencedora do Prêmio Capes de Tese 2023 na área de Filosofia. Foi Scholar Fellow no Kierkegaard Summer Institute (2024) da Hong Kierkegaard Library, no St Olaf College (EUA), e atualmente é pesquisadora de pós-doutorado no PPGLM/UFRJ, com bolsa do Programa Pós-Doutorado Nota 10 (PDR-10/FAPERJ), além de professora do Programa de Pós-Graduação em Filosofia (PPGFIL) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Foi presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Kierkegaard (SOBRESKI) entre 2023 e 2025.
Tales Macêdo da Silva é doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em regime de dupla titulação com a FernUniversität in Hagen, na Alemanha. É mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e bacharel e licenciado em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), instituição onde leciona desde 2020. Dedica-se à Filosofia Moderna e Contemporânea, com ênfase no Idealismo Alemão (Fichte, Schelling e Hegel) e na Filosofia da Existência, sobretudo na obra de Søren Kierkegaard.
Título: Kierkegaard e a tradição alemã
Organizadores: Jean dos Santos Vargas, Natália Mendes Teixeira e Tales Macêdo da Silva
Editora: Ed. PPGFIL-UFMG
Páginas: 298
Formato: PDF
ISBN: 978-65-02-10919-9
DOI: 10.5281/zenodo.21230500