Filosofia Antiga e Medieval

Publicações

A discussão sobre a eternidade do mundo nas tradições árabe, hebraica e latina

“Aqueles que especulam estão confusos sobre a questão da recorrência e se é necessário que, quando a mesma configuração da esfera se repete, as coisas terrestres voltam a ocorrer, sendo semelhantes às que existiam antes. Quanto à recorrência do mesmo particular que foi aniquilado, isso não acontece: nem a configuração nem as coisas terrestres voltam a ocorrer enquanto são as mesmas em número. De fato, a mesma coisa que desaparece não volta a ocorrer. Aquele que discordar disso deve se envergonhar de si mesmo até que sua desgraça na filosofia primeira seja removida.” (Avicena)

“Primeiramente, portanto, no que diz respeito à geração ou à corrupção, deve-se sustentar, de acordo com a fé, que o céu foi criado sobrenaturalmente e também é aniquilável. Mas também deve ser dito que o céu não é naturalmente gerável nem corruptível. E a razão é: porque não tem substância; e tudo o que pode ser gerado ou corruptível naturalmente tem matéria. E também porque o céu não tem nada contrário aos outros corpos, nem segundo a sua substância nem segundo as suas disposições naturais; e assim não é corruptível.” (Jean Buridan)

Fátima R. R. Évora, Tadeu M. Verza e Meline C. Sousa

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Estudos em história da filosofia árabe e islâmica, vol. 2, pt. 1: aspectos doutrinários, al-Farabi

“Para Fārābī, o verdadeiro problema é que, quando as esperanças das pessoas de que os argumentos do kalām produzirão conhecimento são abaladas pela experiência dos argumentos contrários, elas podem perder a fé no poder da razão para resolver as disputas: elas podem concluir que qualquer argumento tem um contra-argumento igualmente bom ou, de qualquer modo, um contra-argumento suficientemente bom para que não possamos julgar racionalmente entre eles. É supostamente desta situação que a filosofia grega e, em particular Platão e Aristóteles, nos salvaria. A salvação falhará se se verificar que Platão e Aristóteles se contradizem, por exemplo, na questão da eternidade do mundo: se isso acontecer, as pessoas do tempo de Fārābī concluirão que Platão e Aristóteles não deram, como afirmam, argumentos demonstrativos, mas simplesmente deram mais argumentos dialéticos de ambos os lados de uma questão. Neste caso, Platão e Aristóteles não nos terão dado razões para acreditar na própria afirmação de que a filosofia nos permite dar argumentos demonstrativos e assim resolver as disputas aparentemente irresolúveis sobre questões fundamentais”. (S. Menn, p. 23)

Tadeu Verza e Meline Sousa

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O élenkhos no Górgias de Platão

“De que tipo sou? Daqueles que seriam prazerosamente refutados se não dissessem algo verdadeiro, que prazerosamente refutariam alguém que não dissesse algo verdadeiro e que certamente não seriam refutados com mais desprazer do que refutariam. Pois considero isto [i.é, ser refutado] um bem maior, na medida em que é um bem maior alguém ser libertado do maior mal do que libertar outrem.” (Górgias 458a2-7)

Janaína Silveira Mafra

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Estudos em história da filosofia árabe e islâmica, vol. 3, pt. 2: fontes, influências e temas centrais

O animal humano que, por meio de engano e astúcia, conhece…
Os meandros da ciência da geometria
Ou astronomia, medicina e filosofia
Que dizem respeito a este mundo
Está impedido de encontrar o caminho para o sétimo céu.
Todas essas ciências são adequadas para a construção de um estábulo
Servem como colunas para a morada de camelos e vacas.
O propósito delas é apenas permitir que o animal sobreviva um ou dois dias
E ainda assim esses imbecis chamam essas ciências de “mistérios”
(Rumi)

 

Deve-se ser conhecido que os primeiros muçulmanos e os primeiros teólogos especulativos desaprovavam muito o estudo dessa disciplina [filosofia]. Eles a atacaram com veemência e advertiram contra ela. Eles proibiram o estudo e o ensino dela. Mais tarde, desde Ghazâlî e Fakhraddîn ar-Râzî, os acadêmicos tornaram-se um pouco mais brandos a esse respeito. Desde esta época, eles continuaram a estudar lógica, exceto por alguns que recorreram à opinião dos antigos a respeito dela e a evitaram e a desaprovaram veementemente.                                                                (Ibn-Khaldûn)

Tadeu Verza e Meline Sousa

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Protodoxógrafos gregos: uma reavaliação do papel de Hípias de Élis como fonte protodoxográfica

Segundo a tese de Snell, teríamos agora um autor – Hípias – que potencialmente anteciparia a atitude de Platão e de Aristóteles em relação a seus predecessores filósofos. Se Platão e Aristóteles citaram Hípias, e mais: se eles se apropriaram até mesmo de certo jargão filosófico introduzido por Hípias e tomaram a estrutura de uma obra sua como modelo para a abordagem filosófica de temas cosmológicos presentes no discurso teológico da poesia épica, então fará todo sentido procurar por outras instâncias em que Hípias possa ter sido citado ou emulado, para além dos trechos que foram esmiuçados por Snell em seu artigo de 1944. […] Chamarei de método de Snell a extrapolação do método empregado por Snell em seu artigo para outras passagens [inicialmente] platônicas e aristotélicas com características semelhantes – especialmente a combinação sequenciada de citações de poetas-teólogos e naturalistas –, como forma de atestar a adoção de Hípias como fonte para determinadas passagens. […] Como se verá, para os usuários do método de Snell, a simples ocorrência de textos paralelos com estrutura similar à identificada por Snell nas passagens do Crátilo, do Teeteto e de Metafísica A.3 passará, com o tempo, a ser tomada como signo inequívoco da presença de Hípias. (p. 102-103)

A conclusão de que Hípias seria um doxógrafo, ou um quase-doxógrafo, ou ainda o inventor da doxografia, que prosperou entre os sucessores de Snell, deriva basicamente do fato de que Snell partiu de um contexto doxográfico para propor sua teoria sobre Hípias. Trata-se, portanto, de uma projeção especulativa anacrônica sobre uma evidência legítima (os paralelos identificados por Snell). Falar em protodoxografia é muito diferente de afirmar que Hípias era um doxógrafo ou um historiador da filosofia. O prefixo ‘proto-’ quer (ou deveria) indicar justamente que Hípias ainda não é um doxógrafo e não implica que ele tivesse qualquer intenção de sê-lo ou de produzir uma história da filosofia. Implica somente que autores posteriores – estes sim agindo como doxógrafos – podem ter tomado trechos de sua obra como fonte de citações enquanto eles mesmos realizavam suas próprias coletas [en]doxográficas. (p. 278)

Gustavo Laet Gomes

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Estudos em história da filosofia árabe e islâmica, vol. 3, pt. 1: fontes, influências e temas centrais

“Os filósofos muçulmanos consideravam a busca pelo conhecimento como um mandamento divino, e o conhecimento da alma, particularmente do intelecto, como um componente crítico desta busca. O domínio deste assunto proporcionava um quadro no qual a mecânica e a natureza das nossas sensações e pensamentos podiam ser explicadas e integradas e oferecia a base epistemológica para todos os outros domínios de investigação. Em oposição aos pontos de vista ocasionalistas dos mutakallimûn, os teólogos muçulmanos, os filósofos desejavam ancorar o seu conhecimento do mundo numa realidade física estável e previsível. Isto implicava naturalizar a própria alma (nafs em árabe), traçando a relação entre os seus sentidos externos e internos e entre as suas faculdades imaginativas e racionais. No entanto, a finalidade última desta disciplina, a conjugação do intelecto com a verdade universal, tinha um aspecto decididamente metafísico e espiritual. As posições psicológicas delineadas por Aristóteles foram o paradigma dominante para os filósofos muçulmanos, modificadas por variações helenísticas que expressavam perspectivas platônicas. Os séculos IX a XII foram o período do rigoroso filosofar que caracteriza a filosofia islâmica clássica […]”. (Alfred Ivry)

Tadeu Verza e Meline Sousa

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