Voltar

“Viver em função de imagens”: moda, magia, subversão

Prefácio de Rodrigo Duarte

 

“Como distinguir uma toalha de banho bege de uma toalha de banho bege da marca Balenciaga? Certamente não seria por suas características estéticas. Esses objetos são praticamente indiscerníveis, não fosse pela logomarca estampada sobre um deles, simbolizando a ação “mágica” operada pelos agentes e instituições de validação da indústria da moda, com o objetivo de elevar uma simples toalha à condição de objeto de culto. O que essa operação sugere é que, por mais distantes que nos julguemos da magia, ainda permanecemos, de algum modo, presos a ela. Está em jogo, porém, não uma questão mística, mas um poderoso mecanismo de criação de valor simbólico que interfere diretamente nas relações sociais. O processo de valorização da moda industrial contemporânea aproxima-se, nesse sentido, da estrutura do ritual mágico tal como descrito por Mauss e Hubert: ambos se fundam numa crença coletiva a priori, ambos operam como cadeias de representações que precedem e condicionam a experiência. E, como toda crença, seu modus operandi exige ocultação: é precisamente essa invisibilidade que garante sua eficácia” (p. 74).

Luciana Nunes Nacif

Aceito os Termos de uso e condições.

Quais são os mecanismos que regem a moda industrial contemporânea? Como se opera a transubstanciação de um objeto comum em objeto de desejo, e o que as imagens de moda revelam (e, sobretudo, ocultam) em seu fascínio? É partindo dessas questões que Luciana Nacif investiga, em Viver em função de imagens: Moda, magia, subversão, o modus operandi de um fenômeno que se impõe como a única forma legítima de conceber moda. A hipótese central que atravessa a obra é a de que a moda industrial contemporânea funciona como um aparelho flusseriano: sistema complexo, opaco, crescentemente automatizado e, hoje, profundamente permeado pelas novas tecnologias, em especial pela inteligência artificial e sua lógica estatístico-financeira. A partir das criações subversivas de Rei Kawakubo, no entanto, a autora demonstra que subsistem no “aparelho da moda” fissuras e contingências, aberturas que possibilitam atos de transformação e a proposição de novos modelos de experiência do mundo. Mais do que uma denúncia do sistema industrial, este livro afirma a moda como campo de disputa, cujo resultado, decisivo para a compreensão de nossa época, ainda permanece em aberto.

Sumário

1 Sobre o conceito de moda

1.1 La clocharde d’Hiroshima

1.2 “Desde que o homem existe, existem modas”

1.3 “A moda não pertence a todas as épocas nem a todas as civilizações”

1.4 “Sem a moda, eu afirmo, o capital não existiria”

1.5 “Corpos nus podiam estar totalmente vestidos”

1.6 “Esferas superpostas à realidade”

2 “Viver em função de imagens”

2.2 Imagem técnica (de moda)

2.3 Imagem-coisa

2.4 Imagem-fluxo

2.5 Caixa preta

3 Monstros

3.2 Nossos restos

3.3 Nossa existência

3.4 Nossa sede

3.5 Nossa pele

4 Aparelho/jogo

4.1 18th Century Punk

4.2 Circuitos de seda

4.3 Máquinas de visão

4.4 Corpos sintéticos

4.5 Made with AI

4.6 Sublimidade cibernética

4.7 Camadas ocultas

4.8 Fotografia especulativa, probabilidade e contingência

Conclusão

Luciana Nunes Nacif é pesquisadora de pós-doutorado na Faculdade de Filosofia da UFMG. Doutora em Filosofia pela mesma instituição, realizou estágio de pesquisa na Université Panthéon Sorbonne por meio do Programa CAPES/COFECUB. É mestre em Global Fashion Management pelo Institut Français de la Mode (IFM-Paris) e graduada em Publicidade e Propaganda pela UFMG. Integra o grupo de pesquisa “Modos de presença nos fenômenos estéticos contemporâneos” (CNPq) e a “REDd: Rede de estudos sobre democracia e desinformação” (IEAT-UFMG). Atua profissionalmente como diretora de arte, e suas pesquisas estão na intersecção entre filosofia, tecnologia e moda.

Título: “Viver em função de imagens”: moda, magia, subversão
Organizadores: Luciana Nunes Nacif
Editora: Ed. PPGFIL-UFMG
Páginas: 234
Formato: PDF
ISBN: 978-65-01-99054-5
DOI: 10.5281/zenodo.19021175