Prefácio de Rodrigo Duarte
“Embora o Brasil seja um país periférico em relação aos Estados Unidos e aos países europeus, ele é um centro cultural, especialmente em relação a outros países periféricos. Em outras palavras, o Brasil é economicamente periférico, mas culturalmente central.” (p.191)
Lara Carvalho Cipriano
Aceito os Termos de uso e condições.
No livro Fenomenologia do brasileiro, Vilém Flusser problematiza a relação entre os “povos históricos” (Primeiro Mundo) e “não-históricos” (Terceiro Mundo). Em outros termos, os primeiros podem ser lidos como os colonizadores e os segundos como os colonizados, visto que o filósofo destaca a dominação cultural que constitui essa relação, sendo que esse tipo de dominação está no cerne da definição de povo colonizado para Frantz Fanon. Tendo em vista o objetivo de investigar a contribuição de Flusser para a crítica descolonial, em especial, para a pesquisa em estética, recorremos ao estudo da história como um problema filosófico a partir da leitura de Hegel, Nietzsche e Walter Benjamin a fim de entender a terminologia empregada por Flusser. Esse estudo mostrou que uma dimensão puramente não-histórica não se sustenta, mas o emprego dessa expressão por Flusser denuncia que a história do Brasil, como a de outros países do Terceiro Mundo, tem sido feita de forma inautêntica. Isso se explica porque no chamado período colonial, a história brasileira era efetivamente escrita por europeus. Como esse período acabou mas a lógica colonial se perpetua, atualmente há uma “burguesia subdesenvolvida” que representa os interesses eurocêntricos ao escrever a história brasileira a partir dos termos oriundos dos países centrais. De acordo com Flusser, esses termos são importados e adotados nos países periféricos para composição de narrativas defasadas, ou seja, aquelas em que há um descompasso entre aquilo que é narrado e aquilo que é vivido. A defasagem reforça a ideia de que os países do Hemisfério Sul são atrasados em relação aos do Hemisfério Norte, visto que, obviamente, os rótulos importados são empregados primeiramente no seu país de origem para depois serem adotados nos demais lugares do mundo. Embora a noção de atraso seja falaciosa, já que todas as fases atualmente vigentes se coimplicam, essa ideia reverbera na recepção e nas produções estéticas brasileiras. Flusser discute isso à luz do barroco mineiro, que, segundo ele, só pode ser admirado se não for lido como barroco. Ele argumenta que “barroco”, enquanto uma categoria histórica e europeia, omite a heterogeneidade inerente ao chamado barroco mineiro, sendo que a originalidade dele refere-se justamente a esse caráter de síntese que é omitido. Essa discussão flusseriana serviu de base para a nossa formulação do conceito de colonização estética. Concluímos que a ruptura com a relação de dominação cultural faz com que seja necessário, por um lado, que a história vá além da pretensão documental e seja pensada esteticamente, e, por outro lado, que a arte seja pensada de acordo com modelos diferentes daqueles estabelecidos pelas narrativas históricas.
Prefácio
Introdução
1 Filosofia da história: antecedentes
1.1 A história em Hegel
1.1.1 As figuras da consciência como partes de um todo
1.1.2 A filosofia como termo final do percurso da consciência
1.1.3 Os acontecimentos históricos como partes de um todo
1.1.4 A liberdade como termo final do progresso histórico
1.2 A história em Nietzsche
1.2.1 A crítica à História no contexto das ideias modernas
1.2.2 O progresso histórico enquanto um equívoco da filosofia hegeliana
1.2.3 Os grilhões da memória como sintoma da doença histórica
1.2.4 O esquecimento como um antídoto
1.3 A história em Benjamin
1.3.1 Progresso histórico: tempestade, catástrofe e ruína
1.3.2 O céu livre da história: a historiografia materialista
2 Aspectos de interesse da filosofia flusseriana
2.1 A história em Flusser
2.1.1 Pré-história, história e pós-história
2.1.2 Pseudo-história, historiografia e não-história
2.2 Considerações sobre a Fenomenologia do brasileiro
2.2.1 O estrangeiro na “terra do futuro”
2.2.2 Turistas ou imperialistas?
2.2.3 A “defasagem” como consequência do enfoque historicista da cultura
2.2.4 A cultura afro-brasileira sob a ótica flusseriana
2.2.5 O “pretupyguês” como índice de heterogeneidade cultural
3 Insurgências anticoloniais
3.1 Filosofia da história hoje
3.1.1 Memórias do futuro, profecias do passado
3.1.2 Museu, templo, cemitério ou escola?
3.1.3 A desmaterialização na arte contemporânea e nas culturas ameríndias
3.1.4 “Povos sem história”, história sem documentos, museu sem objetos
3.2 O que é colonização estética?
3.2.1 Contra a comparação
3.2.2 Dos artifícios estéticos e “cosméticos” para a construção da nação
Considerações finais
Referências bibliográficas
Lara Carvalho Cipriano é doutoranda, mestre e bacharel em Filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A sua dissertação é vinculada à linha de Estética e Filosofia da Arte e tematiza os diálogos possíveis entre o pensamento de Vilém Flusser e a teoria descolonial. A sua tese é vinculada a mesma linha de pesquisa e investiga a metáfora antropofágica como meio de compreensão do colonialismo cultural. Lara também graduou-se em Psicologia na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) com ênfase em psicologia clínica a partir da abordagem psicanalítica e mantém consultório privado de psicanálise.
Título: Estética, história e colonialismo: por uma filosofia do subdesenvolvimento
Autora: Lara Carvalho Cipriano
Editora: Ed. PPGFIL-UFMG
Páginas: 232
Formato: PDF
ISBN: 978-65-01-93409-9
DOI: 10.5281/zenodo.18834905