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Quadrilogia filosofia da música, vol. 4: música popular

“A peculiaridade de boa parte da canção brasileira, sua sofisticação formal e poética, aliada ao consumo massificado, com pleno desenvolvimento de uma indústria cultural, aponta para um desenvolvimento sui generis, marcado, desde o início, pelo desejo de forjar uma identidade nacional por meio da cultura e que, no mínimo, problematiza o diagnóstico adorniano.
É tendo em vista o desenvolvimento sui generis da música popular no Brasil que os textos reunidos neste volume traçam amplo horizonte de reflexão, ressaltando ambiguidades inerentes a esse campo de estudos, em que, não raramente, convivem e se mesclam o erudito e o popular, a padronização comercial e a inovação artística de vanguarda.”

Eduardo L. A. Rodrigues, Wesley F. R. de Sousa e Luís Filipe de Lima Andrade

Aceito os Termos de uso e condições.

No primeiro capítulo, Música Popular nas pesquisas acadêmicas em música: algumas considerações sobre um campo de estudos, Lia Tomás traça um panorama histórico a respeito do surgimento (tardio) e da consolidação dos estudos acadêmicos dedicados à música popular no âmbito da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM). A autora destaca a predominância quase esmagadora das pesquisas dedicadas à música popular realizada em solo nacional e aponta para a necessidade de problematização de um topos recorrente: a correlação entre construção de uma identidade nacional e consolidação da música popular no Brasil.

É essa mesma correlação que recebe o aprofundamento crítico adequado pelas mãos de Wesley Sousa e Bernardo Martins, no segundo capítulo: Heitor Villa-Lobos e a série Choros (1920-1929): o popular nas mãos do mestre. Os autores contextualizam a produção musical de Villa-Lobos no cenário ambíguo e atravessado por contradições do modernismo brasileiro. A tensão entre popular e erudito dá lugar a uma síntese a posteriori, visando a construção de uma identidade nacional.

O tema explorado por Lucas Lipka Pedron no terceiro capítulo: Uma introdução à filosofia do samba. Com foco no conteúdo expresso nas letras de sambas, mas sem deixar de lado o seu aspecto formal, Pedron ressalta a dialética inerente a essa manifestação popular: o samba é expressão de sua cultura ao mesmo tempo em que a produz, perpetuando seus valores estéticos, morais e sócio-politicos, a despeito da sua integração no mainstream cultural brasileiro.

No quarto capítulo deste volume, Araçá Azul como disco concretista-paulista, Guilherme Granato destaca o quanto a tecnologia de gravação foi determinante na construção das estéticas bossanovista e tropicalista, sendo decisiva para a construção de uma música popular de vanguarda no Brasil. O foco de análise recai sobre o álbum Araçá Azul (1973), de Caetano Veloso, explicitando suas relações com o ideário estético da poesia concretista, marcado pela incorporação dos mass media e dos avanços tecnológicos na produção artística em geral.

No quinto capítulo, “Viva a sociedade alternativa”: Rock e reacionarismo, Isadora Almeida Rodrigues e Henrique Leão Coelho se propõem a refletir sobre o aparente paradoxo que liga o público reacionário ao trabalho musical de compositores comumente ligados ao campo progressista: Roger Waters, Caetano Veloso, Raul Seixas, Freddie Mercury, Renato Russo e Cazuza, alguns desses compositores declaradamente progressistas, outros nem tanto, mas que, de qualquer maneira, expressam em suas canções conteúdos que, à princípio, deveriam ser pouco afeitos ao campo reacionário. Por vezes a indústria se volta para a cultura popular marginalizada, na tentativa de cooptá-la, mas, nesse mesmo movimento, acaba deixando escapar algo que vai além do mero empreendimento comercial, ocasionado uma desterritorialização do mainstream cultural.

Em Vestindo o canto: moda, música popular e axé na obra de Clara Nunes, sexto e último capítulo, Marina Seif e Marlon de Souza Silva mostram como o campo imagético atrelado ao repertório musical de Clara Nunes, nas décadas de 1970 e 1980, se reverte em memória coletiva e espaço político de afirmação das minorias: religiões de matrizes africanas como a Umbanda e o Candomblé, o carnaval e o folclore brasileiro, são referências marcantes e constantes na imagem visual e na performance de Clara Nunes. Seu figurino, composto com saias rodadas, fios e tiaras de contas, turbantes e rendas, consolidaram, no seio da indústria, uma estética visual minoritária, que se transformou em símbolo de afirmação da identidade afro-brasileira.

Sobre a Quadrilogia filosofia da música

Apresentação: prelúdio para uma topologia da música popular, por Rafael Sellamano

Música popular nas pesquisas acadêmicas em música: algumas considerações sobre um campo de estudos, por Lia Tomás

Heitor Villa-Lobos e a série Choros(1920-1929): o popular nas mãos do mestre, por Wesley Sousa e Bernardo Martins

Uma introdução à filosofia do samba, por Lucas Lipka Pedron

Araçá azul como disco concretista-paulista, por Guilherme Granato

“Viva a sociedade alternativa”: rock e reacionarismo, por Isadora Almeida Rodrigues e Henrique Leão Coelho

Vestindo o canto: moda, música popular e axé na obra de Clara Nunes, por Marina Seif e Marlon de Souza Silva

Lia Tomás
Professora Titular em Estética Musical (UNESP). É membro titular do Conselho Universitário da UNESP e da Congregação do Instituto de Artes. Coordena o DeMusica: Laboratório de Estudos em Estética Musical e Filosofia da Música (Projeto CNPq)

Wesley Sousa
Doutorando em Filosofia pela UFMG. Membro da ABRE (Associação Brasileira de Estética) e do grupo de pesquisa “Modos de presença nos fenômenos estéticos” (UFMG/CNPq). Bolsista Fapemig.

Bernardo Martins
Graduado em Música (Flauta Transversal) pela Escola de Música na UEMG.

Lucas Lipka Pedron
Doutor em Filosofia pela UFPR. Professor de Filosofia em SEE-MG, membro da ABRE (Associação Brasileira de Estética) e do grupo de pesquisa Histórias das Filosofias (IFPR/CNPq)

Guilherme Granato
Bacharel em Música Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas – FMU (2003); Licenciatura em Educação Musical pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP (2009). Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP (2016). Doutorando em ciências musicais pela Universidade Nova Lisboa FCSH. Áreas de interesse: Música; Educação Musical; Estética e Filosofia da Arte

Isadora Almeida Rodrigues
Graduada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (2009), Mestre em Estudos Literários pela mesma instituição (2013). Doutora em Estudos de Linguagens pelo Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET-MG – 2022). Em 2025, obteve segunda licenciatura em Língua Inglesa pela Estácio. É, ainda, graduanda em Música pela Universidade do Estado de Minas Gerais (2023-). Atua como professora de Literatura, Língua Portuguesa e Produção de Texto na Educação Básica desde 2019.

Henrique Leão Coelho
Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestrado em Administração, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor Efetivo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro (IFTM). Pesquisador e Professor nas áreas de Filosofia e Ciências Sociais.

Marina Seif
Doutoranda e mestre em Artes pela Escola de Belas Artes da UFMG, onde pesquisa moda e religiosidade afro-brasileira. Graduada em Design de Moda e Design Gráfico, é especialista em História da Arte pela PUC Minas. Atuou na curadoria da exposição Clara Nunes: Eu sou a tal mineira (MUMO) e é professora voluntária do curso de Design de Moda da UFMG. Bolsista CAPES.

Marlon de Souza Silva
Doutor em História pela UFMG e mestre pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), onde também se graduou. Professor do Centro de Ensino Superior de Conselheiro Lafaiete (CES-CL) e da UEMG (campus Barbacena), integrou a curadoria da exposição Clara Nunes: Eu sou a tal mineira (MUMO). É curador do Memorial Clara Nunes e membro do Conselho de Pesquisa do Instituto Clara Nunes.

Título: Quadrilogia filosofia da música, vol. IV: música popular
Organizadores: Eduardo L. A. Rodrigues, Wesley F. R. de Sousa e Luís Filipe de Lima Andrade
Editora: Ed. PPGFIL-UFMG
Páginas: 232
Formato: PDF
ISBN: 978-65-02-03176-6
DOI: 10.5281/zenodo.20090322