“The only thing preventing a holocaust is just so long as no one pulls the trigger – this is unthinkable” (Reagan, 1983). Apesar de ter sido pronunciada por Reagan, essa frase poderia muito bem estar nas entrelinhas da Dialética do esclarecimento. Há, me parece, uma conexão íntima, “estrutural”, entre a “dissolução da racionalidade política moderna em uma forma irracional de racionalidade” (Cerutti, 1987), a “dissolução da Dialética do esclarecimento” levada a cabo por Foucault e Habermas (Honneth, 1997), e aquilo que chamei aqui de dissolução ontológica do problema da dominação social. A “impensabilidade” da “ordem nuclear” expressa a mesma aporia com que Adorno e Horkheimer se defrontaram (Adorno; Horkheimer, 2006, p. 11) e que fora posteriormente rejeitada como uma impostura.” (p. 207)
“Convido a uma leitura que não oferece consolo. A tese de Rodolpho Venturini não restabelece a possibilidade de uma situação de “dominação total” nem abandona a crítica a um fatalismo paralisante. Mas ela insiste em manter em aberto a questão que a teoria crítica contemporânea pretendeu fechar: se, dadas certas condições históricas e materiais, uma ordem de dominação pode ser de fato irrevogável. Que essa questão não possa ser respondida a priori é precisamente o que torna necessária uma leitura como esta. Que ela deva ser mantida em suspenso – nem resolvida por liminar ou por decreto conceitual, nem transformada em profecia do colapso – é o que faz dessa pesquisa uma intervenção fundamentalmente crítica no pensamento contemporâneo. Uma intervenção que merece ser lida com toda a atenção que seu rigor conceitual e sua aposta política exigem.” (Prefácio)
“Mas, se é a Foucault que retorna, é no espírito, não na letra, e para ser mais foucaultiano do que Foucault (como só se revela no epílogo). Pois é justamente no arranjo da sociabilidade posto por um dispositivo técnico que Venturini vai buscar a solução do enigma. A denegação conceitual da dominação total só pode ter por correlato real a própria dominação total. Sua função é denegá-la, quase como que para preservar a própria posição institucional do “teórico crítico”. Sem pretender substituir os complexos diagnósticos frankfurtianos sobre a socialização total, Venturini os suplementa de uma maneira absolutamente surpreendente e vertiginosa.” (Posfácio)
Rodolpho Venturini
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Prefácio de Jacyntho Lins Brandão
“A distinção é escolar: poucas ideias na história da filosofia são tão difundidas e assumidas quanto aquela que afirma que os diálogos de Platão, essencialmente, apresentam uma teoria ou doutrina dos dois mundos, uma separação irrevogável entre o “mundo das Ideias”, e o “mundo sensível”, este nosso mundo aqui, imitação imperfeita do primeiro, e que, por isso mesmo, passa como uma cópia inferior, sombra da verdade.
De saída, se não fosse essa definição para a filosofia platônica tão comum e rigidamente estabelecida, não entenderíamos nada da expressão “teoria dos dois mundos” de Platão: para não falar de “teoria”, um conceito que pode gerar as maiores dificuldades, ficaríamos totalmente perplexos se parássemos para pensar no que significa afirmar que a filosofia de Platão pode ser resumida numa separação de “dois mundos”. Um mundo apenas já não seria razão suficiente para uma longa reflexão filosófica? A palavra “mundo” é muito comum na linguagem corrente, revestindo-se de uma polissemia impressionante, sendo também uma questão crucial na história da filosofia, o que por si só já seria uma primeira justificativa para o projeto deste livro, o de mostrar o papel que Platão assume nesse processo de formação de um conceito ou definição de mundo.
Não obstante, a hipótese precisa defendida neste texto é a de que o rótulo “teoria dos dois mundos”, quando aplicado para definir a essência do pensamento de Platão, além de prescindir de uma consideração mais satisfatória do que significa “mundo” propriamente, também prescinde de uma análise mais detida da filosofia dos diálogos, e, a bem da verdade, os adeptos de uma tal interpretação não têm clareza com relação a seus pressupostos e os sentidos na base de suas afirmações. Em linhas gerais, sabemos das implicações que uma inadvertida concepção da teoria dos dois mundos impõe à filosofia platônica: seria como se o filósofo fosse alguém que desejasse habitar um outro mundo, munido de uma teoria do conhecimento absurda e inatual, cujas contrapartes práticas seriam o autoritarismo político, o intelectualismo moral e uma escatologia amedrontadora”.
George Matias de Almeida Júnior
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Lucas Azevedo Maksud
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