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Epistemologia

As Regras para a orientação do espírito: uma interpretação da filosofia cartesiana

O texto das Regras revela diversos problemas filosóficos que ocuparão a mente de Descartes durante toda a sua trajetória intelectual. Nele, encontramos a organização e estruturação de certos elementos que compõem uma das primeiras tentativas do filósofo de resolver tais problemas. Essas tentativas do jovem Descartes, como foi apresentado, influenciam diretamente a maneira como ele tratará desses mesmos temas na maturidade. Da mesma forma, impactam na importância que Descartes atribui a certos temas, como a própria Filosofia Primeira. Ademais, o empreendimento das Regras revela o pensamento cartesiano em sua formação. As Regras para a orientação do espírito configuram uma parte ínfima do corpus cartesiano. São pouco mais de cem páginas e seu conteúdo não foi finalizado, mas abandonado com menos de metade do que havia sido projetado. As teorias e hipóteses apresentadas ali, quando comparadas com a doutrina cartesiana da maturidade, são apenas ensaios, tentativas que apresentam diversas dificuldades. O desenvolvimento do pensamento cartesiano que ocorre entre as Regras e as Meditações ou entre as Regras e os Princípios é evidente. Mesmo sem focar nas diferenças marcantes que a fundamentação metafísica opera, a filosofia da maturidade de Descartes destoa em diversos momentos da teoria da juventude. Entretanto, as Regras refletem o espírito cartesiano em seu início e, por isso, são imprescindíveis para compreender como Descartes chegou a ser o filósofo que compôs as Meditações. A filosofia da maturidade cartesiana lida incontestavelmente com as carências, defeitos, lacunas e problemas abordados nas Regras. É a partir desse tratado abandonado que podemos compreender o desenrolar do pensamento de Descartes. (p. 397)

Ana Cláudia Teodoro Sousa

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Estudos em história da filosofia árabe e islâmica, vol. 2, pt. 2: aspectos doutrinários, al-Farabi

“Para Fārābī, o verdadeiro problema é que, quando as esperanças das pessoas de que os argumentos do kalām produzirão conhecimento são abaladas pela experiência dos argumentos contrários, elas podem perder a fé no poder da razão para resolver as disputas: elas podem concluir que qualquer argumento tem um contra-argumento igualmente bom ou, de qualquer modo, um contra-argumento suficientemente bom para que não possamos julgar racionalmente entre eles. É supostamente desta situação que a filosofia grega e, em particular Platão e Aristóteles, nos salvaria. A salvação falhará se se verificar que Platão e Aristóteles se contradizem, por exemplo, na questão da eternidade do mundo: se isso acontecer, as pessoas do tempo de Fārābī concluirão que Platão e Aristóteles não deram, como afirmam, argumentos demonstrativos, mas simplesmente deram mais argumentos dialéticos de ambos os lados de uma questão. Neste caso, Platão e Aristóteles não nos terão dado razões para acreditar na própria afirmação de que a filosofia nos permite dar argumentos demonstrativos e assim resolver as disputas aparentemente irresolúveis sobre questões fundamentais”. (S. Menn, p. 23)

Tadeu Verza e Meline Sousa

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Mundo, espaço e lugar: uma crítica à teoria dos dois mundos atribuída a Platão

Prefácio de Jacyntho Lins Brandão

“A distinção é escolar: poucas ideias na história da filosofia são tão difundidas e assumidas quanto aquela que afirma que os diálogos de Platão, essencialmente, apresentam uma teoria ou doutrina dos dois mundos, uma separação irrevogável entre o “mundo das Ideias”, e o “mundo sensível”, este nosso mundo aqui, imitação imperfeita do primeiro, e que, por isso mesmo, passa como uma cópia inferior, sombra da verdade.

De saída, se não fosse essa definição para a filosofia platônica tão comum e rigidamente estabelecida, não entenderíamos nada da expressão “teoria dos dois mundos” de Platão: para não falar de “teoria”, um conceito que pode gerar as maiores dificuldades, ficaríamos totalmente perplexos se parássemos para pensar no que significa afirmar que a filosofia de Platão pode ser resumida numa separação de “dois mundos”. Um mundo apenas já não seria razão suficiente para uma longa reflexão filosófica? A palavra “mundo” é muito comum na linguagem corrente, revestindo-se de uma polissemia impressionante, sendo também uma questão crucial na história da filosofia, o que por si só já seria uma primeira justificativa para o projeto deste livro, o de mostrar o papel que Platão assume nesse processo de formação de um conceito ou definição de mundo.

Não obstante, a hipótese precisa defendida neste texto é a de que o rótulo “teoria dos dois mundos”, quando aplicado para definir a essência do pensamento de Platão, além de prescindir de uma consideração mais satisfatória do que significa “mundo” propriamente, também prescinde de uma análise mais detida da filosofia dos diálogos, e, a bem da verdade, os adeptos de uma tal interpretação não têm clareza com relação a seus pressupostos e os sentidos na base de suas afirmações. Em linhas gerais, sabemos das implicações que uma inadvertida concepção da teoria dos dois mundos impõe à filosofia platônica: seria como se o filósofo fosse alguém que desejasse habitar um outro mundo, munido de uma teoria do conhecimento absurda e inatual, cujas contrapartes práticas seriam o autoritarismo político, o intelectualismo moral e uma escatologia amedrontadora”.

George Matias de Almeida Júnior

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