Somos o que somos. Reconhecer nossa posição no mundo passa por rever nossas práticas. Respondemos a razões, reconhecendo e reagindo enquanto vamos atribuindo ou reconhecendo sentido ao mundo. Às vezes agimos racionalmente, outras emocionalmente, outras tantas de maneira prudencial. Ser moralmente responsável em uma perspectiva semicompatibilista significa que nos vemos como seres capazes de reagir a razões. Somos autores de nossas ações, atribuímos e reconhecemos significado no mundo, em nossas ações e nas ações de outros. Somos, assim, livres. (p. 302)
Fernando Ruiz Rosario
Saiba mais
“The only thing preventing a holocaust is just so long as no one pulls the trigger – this is unthinkable” (Reagan, 1983). Apesar de ter sido pronunciada por Reagan, essa frase poderia muito bem estar nas entrelinhas da Dialética do esclarecimento. Há, me parece, uma conexão íntima, “estrutural”, entre a “dissolução da racionalidade política moderna em uma forma irracional de racionalidade” (Cerutti, 1987), a “dissolução da Dialética do esclarecimento” levada a cabo por Foucault e Habermas (Honneth, 1997), e aquilo que chamei aqui de dissolução ontológica do problema da dominação social. A “impensabilidade” da “ordem nuclear” expressa a mesma aporia com que Adorno e Horkheimer se defrontaram (Adorno; Horkheimer, 2006, p. 11) e que fora posteriormente rejeitada como uma impostura.” (p. 207)
“Convido a uma leitura que não oferece consolo. A tese de Rodolpho Venturini não restabelece a possibilidade de uma situação de “dominação total” nem abandona a crítica a um fatalismo paralisante. Mas ela insiste em manter em aberto a questão que a teoria crítica contemporânea pretendeu fechar: se, dadas certas condições históricas e materiais, uma ordem de dominação pode ser de fato irrevogável. Que essa questão não possa ser respondida a priori é precisamente o que torna necessária uma leitura como esta. Que ela deva ser mantida em suspenso – nem resolvida por liminar ou por decreto conceitual, nem transformada em profecia do colapso – é o que faz dessa pesquisa uma intervenção fundamentalmente crítica no pensamento contemporâneo. Uma intervenção que merece ser lida com toda a atenção que seu rigor conceitual e sua aposta política exigem.” (Prefácio)
“Mas, se é a Foucault que retorna, é no espírito, não na letra, e para ser mais foucaultiano do que Foucault (como só se revela no epílogo). Pois é justamente no arranjo da sociabilidade posto por um dispositivo técnico que Venturini vai buscar a solução do enigma. A denegação conceitual da dominação total só pode ter por correlato real a própria dominação total. Sua função é denegá-la, quase como que para preservar a própria posição institucional do “teórico crítico”. Sem pretender substituir os complexos diagnósticos frankfurtianos sobre a socialização total, Venturini os suplementa de uma maneira absolutamente surpreendente e vertiginosa.” (Posfácio)
Rodolpho Venturini
Saiba mais
“Essa capacidade de imaginar o jogo político é o que caracteriza, em certa medida, a experiência democrática. É claro que tal experiência é impossível na Europa do Antigo Regime e, de maneira geral, em toda sociedade na qual a ação política se trama em segredo, depende da decisão privada do Príncipe e de seu Conselho ou de um poder oligárquico. Nestes casos está ausente o poder de apreciar o jogo dos atores e, portanto, de fazer de si mesmo, pela imaginação, um ator virtual. Ora, é justamente isto que me parece sobressair da história da maior parte dos países da América Latina: o povo, na sua grande maioria, jamais esteve no passado em condições de acessar a inteligência da ação política. É como dizer que a fratura foi tão profunda entre, de um lado, o grande número — os camponeses, os trabalhadores, de maneira geral, os pobres — e, de outro, as elites, de modo que não houve a possibilidade de se conceber o que a intriga da política significava.” (Claude Lefort, Democracia e representação, p. 419)
Bruno V. Melo, Eduardo de A. Passos, Ana L. Feliciano, Arthur S. Christo, Fernanda A. Galina e Yago P. Lima
Saiba mais
“Para além da questão sobre se há um significado geral comum para “normatividade”, parecemos também enfrentar dificuldades mesmo circunscrevendo a questão ao domínio da moralidade, que é o tema central deste livro. Em geral, partimos do pressuposto [como um dado] de que a moralidade é normativa. […] A despeito disso, possuímos pouca clareza (e parecemos divergir de modo significativo) sobre o que se pode substancialmente extrair daquele “dado”. Atenção a essa dificuldade sobre o que derivar do pressuposto de que o domínio da moralidade é normativo é algo raramente explicitado na literatura contemporânea sobre ética e metaética. Decerto há disponível nessa literatura um extenso leque de propostas sobre a natureza e o conteúdo da normatividade moral. Mas o grande desafio é saber se aquele “dado” do qual partimos é suficiente para justificar expectativas de que seja possível unificar o fenômeno em torno de um conceito unívoco.”
Leonardo de M. Ribeiro; Rogério A. Picoli e Vitor Sommavilla
Saiba mais
Prefácio de Gabriel Pancera
“No contexto das disputas militares, os fundamentos dos estados são relevados, descobrimos a sua capacidade de responder às demandas da ocasião: na guerra as repúblicas e os príncipes são testados conforme respondem às contingências e adversidades. O ordenamento conservador de Esparta e Veneza fracassa porque a indeterminação, enquanto fato estruturante da vida política, lhe escapa: nem todas as conquistas e expansões militares podem ser fruto de uma decisão racional dos dirigentes políticos do estado; por vezes, é a única alternativa a ser conquistada por seus vizinhos. Todos os esforços político-institucionais isolacionistas que podem ser tomados de antemão serão sempre vãos contra a contingência. A segurança nunca pode ser suficiente ao estado […]. Ao tomar o conflito como ponto de partida de uma teoria da potência e da liberdade do estado, Maquiavel avança uma inovadora concepção da república. A unidade do corpo social não deriva de mecanismos externos de produção de consenso, tampouco recorre à referência abstrata a algum elemento comum que lhe pudesse ordenar. Ao contrário, a continuidade espaço-temporal de um regime depende da diferença, da energia que se extrapola quando o corpo social se revela como atravessado pela divisão entre os desejos do povo e dos grandes. O sentido de Roma é assim reescrito, posto que iluminado à luz do conhecimento da relação entre o acidental e o necessário. Em seus conflitos, Roma é constantemente confrontada com a possibilidade de sua dissolução, quer na exasperação de sua divisão que conduzisse à ruína da cidade, quer na possibilidade que um homem ou grupo de homens possa pretender tiranizar a república ao explorar suas divisões. Apesar e em virtude disso, seu modelo é intrinsecamente superior, porque compreende a contingência e dela se apropria.”
Yago Lima Pessoa
Saiba mais
“Na história, se alguma coisa há que deleite ou ensine, é a descrição em particularidades e, se alguma lição há que seja útil aos cidadãos que governam as repúblicas, é aquela que demonstra os motivos dos ódios e das divisões das cidades, para que, diante do perigo em que incorreram outros, eles possam ganhar sabedoria e manter-se unidos”. (Maquiavel, História de Florença)
Hellton Adverse (Org.)
Saiba mais