Prefácio de Ivan Domingues
“O que as heterotopias fazem, tanto no campo epistemológico quanto no político, é tornar a ordem visível e legível, ao mapear os espaços existentes (seja o espaço discursivo, do conhecimento, sejam espaços físicos concretos, arquiteturais), funcionando como locais de reordenamento. Ao dar a ver os espaços naturalizados da ordem vigente, elas permitem que tal ordem, até então implícita, apareça, mas também que apareçam seus interstícios, suas fissuras, portanto seus limites, anunciando a possibilidade de que outras formas possam se instalar. Mas, antes mesmo desta “promessa” que se dá no tempo, demonstram que tal ordem hegemônica não é absoluta e onipresente, ou seja, já não ocupa, no momento atual, todo o espaço de forma homogênea – se o fizesse, não seria possível para nós percebê-la. O espaço, heterogêneo e complexo, é composto por uma rede de relações entre elementos que atuam sincronicamente, sendo que, ao identificá-las, já estamos a atuar sobre ele.
A esquerda marxista e existencialista acusou Foucault de tornar impossível a ideia de “revolução”, a qual se baseia em uma concepção dialética, segundo a qual as contradições geram, como fruto da passagem do tempo, as transformações. Se pensarmos que o espaço da ordem vigente já possui, no momento atual, fissuras e interstícios que evidenciam a ordem em funcionamento, mostrando que ela não é natural, e sim construída, a abertura para a transformação pode ser pensada não apenas, ou não necessariamente, em uma lógica temporal, diacrônica, mas espacial, sincrônica. A revolução, enquanto algo porvir, é substituída por formas alternativa de ordenamento, de existência ou resistência já presentes.
A partir de Jorge Luiz Borges e da noção de heterotopia, Foucault evidencia esta ligação entre o espaço e a ordem, bem como entre ambos e o pensamento ou a produção de conhecimento, já que é preciso dispor as coisas em locais específicos para que façam sentido para nós. Se os objetos do conhecimento são indistinguíveis, tornam-se também incognoscíveis. Quando nos deparamos com o incongruente, o inconcebível, precisamos recorrer a este espaço que sustenta a ordenação e fica evidente que nossa capacidade conhecer depende dele, bem como que ele possui estas “casas brancas” através das quais conseguimos olhá-lo – afinal, se estivéssemos totalmente imersos na hegemonia desta ordem, ela nos seria invisível. Talvez, permaneçamos bastante tempo nesta imersão que conduz à invisibilidade das formas dominantes de ordem, política e epistemológica. No entanto, quando nos voltamos para este espaço e o observamos de fora, como um etnólogo de nossa própria cultura, percebemos que ele, como todo espaço, possui uma história. Se o espaço epistemológico é aquele sobre o qual se constitui o que aparece para nós como a “verdade”, então esta também possui uma história, e é sobre essa “mesa operacional” que essa história se encontra, esperando para ser recuperada.”
Débora Bráulio Santos
Aceito os Termos de uso e condições.
Em As palavras e as coisas, Michel Foucault faz uma breve menção a Jorge Luiz Borges para defender a ideia de que o conhecimento necessita de um espaço, já que conhecer implica criar uma ordem, uma organização dos elementos que são objeto do conhecimento. A irônica enciclopédia chinesa de Borges explicita, ao mesmo tempo, a necessidade da ordem e sua arbitrariedade, levando à criação do neologismo heterotopia. O termo se refere a um espaço de ordem que desestabiliza a ordem hegemônica ao explicitá-la, ou seja, ao desnaturalizar algo implícito que se apresenta para nós como pressuposto natural ou irrefletido.
A tese deste livro é de que esta noção apresentada no prefácio representa o próprio gesto da obra de Foucault, ao desnaturalizar o espaço de ordem que subjaz à história de algumas ciências humanas, oferecendo um espaço outro, uma heterotopia desta história consagrada, que se constrói a partir de pressupostos que o autor desejava explicitar e, ao mesmo tempo, desestabilizar – de um lado, uma concepção dialética e progressiva da história e, de outro, uma visão universalista e atemporal da subjetividade.
Buscando enfrentar críticas – como as de uma obra estruturalista e formalista, apolítica ou conservadora, que elimina a história e a liberdade humana – realizamos uma leitura imanente da mesma, com vistas a esclarecer a famosa tese da “morte do homem”, que se tornou uma marca do pensamento de Foucault. Discutimos as relações do autor com o estruturalismo, com a literatura e com a Escola dos Annales, por meio da crítica do documento. Defendemos o caráter histórico e político do projeto arqueológico de investigação das condições de possibilidade dos discursos, ligado à pergunta pelos nossos limites históricos, por como viemos a nos tornar o que somos e à invenção de novas formas para o dizível e o pensável.
O objetivo final é renovar o interesse pela dita fase arqueológica de Foucault, que recebe menos atenção do que as ditas fases genealógica e ética. As conquistas teóricas da arqueologia são ainda insuficientemente reconhecidas, seja pelos próprios estudiosos do autor, seja por epistemólogos e filósofos das ciências. Esclarecer as teses, conceitos e procedimentos metodológicos da obra permite clarificar sua empreitada e evidenciar sua possível atualidade.
Apresentação
1. O espaço: uma heterotopia da história das ideias
1.1. Borges e a linguagem: a arbitrariedade da ordem
1.2. Foucault e a arqueologia: assassinato da história e morte do homem
1.3. O espaço da ordem: heterotopia
2. O tempo: uma arqueologia da arqueologia
2.1. Introdução
2.2. Bloch e Febvre: vestígios do procedimento arqueológico
2.3. História comparativa, crítica da origem e a relação entre palavras e coisas
2.4. O ofício do historiador-arqueólogo, leitor de monumentos
2.5. Braudel, as ciências humanas e a longa duração
3. As palavras e as coisas: uma arqueologia da filosofia
3.1. Las meninas: um monumento clássico
3.2. A epistémê do Renascimento: vestígio da união entre as palavras e as coisas
3.3. Dom Quixote: vestígio de uma ruptura
3.4. A epistémê clássica e a invisibilidade da representação
3.5. As palavras, os seres, as trocas: a ausência do homem
3.6. A transição para a epistémê moderna: indício de uma ruptura
3.7. O nascimento do homem: um achado arqueológico
3.8. A morte do homem: previsão ou assassinato?
3.9. O caminho das ciências humanas rumo ao Outro do homem
Conclusão
Referências bibliográficas
Débora Santos é doutoranda em Filosofia pela UFMG, com pesquisa sobre as implicações epistemológicas e políticas do pensamento de Michel Foucault, sobretudo por meio da obra de Ian Hacking. É mestre e graduada em Filosofia, e possui também graduação em Comunicação Social – Jornalismo pela mesma instituição. Tem interesse por temas ligados a epistemologia das ciências humanas, antropologia filosófica e filosofia francesa contemporânea, e suas articulações com a teoria crítica e com questões epistemológicas, ético-políticas e educacionais. Foi professora substituta de Filosofia da Educação na Faculdade de Educação da UFMG, além de pesquisadora e educadora na Oi Kabum! Escola técnica de arte e tecnologia de BH, sendo responsável pela pesquisa e formação em experiências de ensino democráticas e alternativas. Atua na interface entre as humanidades, a arte, a cultura e a educação. Tem experiência como parecerista e criadora de projetos culturais, com destaque para a cultura popular e manifestações afro-brasileiras. É também mãe da Iara, professora particular de francês e tradutora.
Título: Uma heterotopia da história: espaço e tempo em As palavras e as coisas de Michel Foucault
Autora: Débora Bráulio Santos
Editora: Ed. PPGFIL-UFMG
Páginas: 368
Formato: PDF
Requisitos de sistema: Adobe Acrobat Reader
Modo de acesso: World Wide Web
ISBN: 978-65-01-27619-9
DOI: 10.5281/zenodo.14531836