Prefácio de Simeão Sass
“Dizer que o corpo foi inventado teoricamente no século XX não significaria, portanto, omitir definições clássicas anteriores, mas constatar que elas nunca lhe haviam permitido uma posição realmente primária. Na interpretação de Courtine, essa mudança de estatuto ocorreria através da psicanálise de Freud (1856-1939), em sua concepção de que ‘o inconsciente fala através do corpo’ (Courtine, 2011, p. 7); por meio da fenomenologia de Husserl (1859-1938), para a qual o corpo se encontra na origem das significações; e através da antropologia, particularmente, de Marcel Mauss (1872-1950), em sua análise de como as diferentes sociedades servem-se de seus corpos (as várias ‘técnicas dos corpos’). As lutas identitárias do pós-guerra e o trabalho de Foucault (1926-1984), posteriormente, teriam dado força crucial a essa existência teórica. Tudo isso, por outro lado, conectado a mudanças-chave na forma de as pessoas experimentarem ou lidarem com os corpos. Com efeito, ‘jamais o corpo humano conheceu transformações de uma grandeza e de uma profundidade semelhantes às encontradas no decurso do século que acaba de terminar’ (Ibidem, p. 10).
No século XXI, a corporeidade aparece em diálogo com questões de gênero, raciais, ambientais, estéticas, tecnológicas, bioéticas, para citar algumas. Fenômenos como a diversidade sexual, a busca por corpos ‘perfeitos’ através de academias ou procedimentos cirúrgicos, o uso exacerbado e o contínuo desenvolvimento de tecnologias virtuais, a desregrada interferência sobre o meio ambiente, continuam a fomentar o interesse pelo corpo como objeto de investigação, e, por conseguinte, pelo humano, em seus limites e possibilidades.
Jean Carlos Duarte Pinto Coelho
Aceito os Termos de uso e condições.
Ao longo de seus trabalhos das décadas de 30 e 40, Jean-Paul Sartre elabora uma noção de corpo. Os ensaios de psicologia fenomenológica — sobretudo, Esquisse d’une théorie des émotions (Esboço para uma teoria das emoções) (1939) e sua concepção de um duplo caráter corpóreo —, tal como a obra literária — particularmente, o romance La nausée (A náusea) (1938) e seu destaque ao tema da contingência —, se encontram com a abordagem ontológica e dialética da corporeidade de L’être e le néant (O ser e o nada) (1943). Construir uma “noção”, entretanto, não implica somente a complementaridade entre os textos, mas também rupturas interpretativas; ao mesmo tempo, aponta para referências críticas, como a fenomenologia. O corpo, em Sartre, é de fundamental importância à compreensão de sua filosofia e ao enriquecimento das discussões contemporâneas.
Introdução
1 O corpo e a psicologia
1.1 A psicologia fenomenológica
1.2 Corpo, ego e imagem
1.3 A emoção e o duplo caráter do corpo
1.4 Da psicologia à ontologia
2 O corpo e a ontologia
2.1 A ontologia fenomenológica: em-si, para-si e para-outro
2.2 Os modos de ser ou níveis ontológicos do corpo
2.3 Corpo e alteridade
3 O corpo e a literatura
3.1 Literatura e método
3.2 Corpo-náusea
3.3 O corpo literário
Conclusão
Jean Carlos Duarte Pinto Coelho é doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com pesquisa sobre os pensamentos de Jean-Paul Sartre e Frantz Omar Fanon, mais especificamente, sobre os processos coloniais, em sua vinculação a temas como corpo, alteridade e violência. É mestre e licenciado em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com formação complementar na mesma área pela Universidade do Porto (U.Porto – Portugal). Trabalha como docente no ensino médio e tem grande interesse pela filosofia contemporânea e por suas interfaces com outras áreas das humanidades.
Título: Sartre e a noção de corpo
Autor: Jean Carlos Duarte Pinto Coelho
Editora: Ed. PPGFIL-UFMG
Páginas: 230
Formato: PDF
ISBN: 978-65-01-52078-0
DOI: 10.5281/zenodo.16005408