Somos o que somos. Reconhecer nossa posição no mundo passa por rever nossas práticas. Respondemos a razões, reconhecendo e reagindo enquanto vamos atribuindo ou reconhecendo sentido ao mundo. Às vezes agimos racionalmente, outras emocionalmente, outras tantas de maneira prudencial. Ser moralmente responsável em uma perspectiva semicompatibilista significa que nos vemos como seres capazes de reagir a razões. Somos autores de nossas ações, atribuímos e reconhecemos significado no mundo, em nossas ações e nas ações de outros. Somos, assim, livres. (p. 302)
Fernando Ruiz Rosario
Aceito os Termos de uso e condições.
O objetivo desta obra é apresentar uma noção semicompatibilista sobre responsabilidade moral. O semicompatibilismo é a tese segundo a qual a liberdade para a responsabilidade moral pode ser alcançada tanto em cenários deterministas quanto indeterministas. Para isso, é necessário que o indivíduo exerça o controle de orientação, que requer a posse pelo agente de um mecanismo moderadamente responsivo a razões, mas que dispensa o acesso a possibilidades alternativas. Essa visão se contrapõe a posições incompatibilistas, que afirmam que o livre-arbítrio não é compatível com o determinismo causal. Libertários são incompatibilistas que defendem que não teríamos liberdade em um mundo determinista, mas que nosso mundo é indeterminado, possibilitando o livre-arbítrio e, por consequência, a responsabilidade moral. Essa posição, apesar de forte apelo intuitivo, apresenta dificuldades de adequação as nossas melhores teorias científicas e em explicar como o controle pode ser obtido em cenários indeterministas. Já incompatibilistas fortes afirmam que dificilmente o mundo seria tal que possibilitasse o livre-arbítrio, de maneira que devemos adotar uma postura cética sobre o livre-arbítrio e, portanto, devemos revisar completamente a responsabilidade moral a fim de excluir práticas e noções que dependam dessa liberdade. Essa posição não captura nossa prática de responsabilização moral, além de não ser capaz de conectar ações passadas a sanções preventivas. Para se mostrar como uma posição possível, o semicompatibilismo precisa distinguir a maneira como o determinismo nos afeta dos casos de manipulação que afetam o livre-arbítrio, o que será feito por meio da ideia de que certas manipulações globais não alteram estados mentais relevantes do agente, mas os constituem. Também será necessário mostrar que a noção de responsabilidade moral não depende de acesso a possibilidades alternativas, apenas que a ação seja de autoria do agente. Para atingir tal objetivo, será proposto que o semicompatibilismo precisa ser revisionista sobre o conceito de responsabilidade moral, uma vez que parte da sua compreensão está ancorada em intuições libertárias que não podem ser mantidas. Dessa maneira, será defendido que a noção de autoria de ações adicionada à ideia de responsividade a razões ajuda a explicar as condições necessárias para a responsabilidade moral em nosso mundo.
Prefácio
Introdução
1 O incompatibilismo libertário
1.1 Caminhos libertários
1.2 Livre-arbítrio e liberdade da vontade
1.3 O argumento de consequência
1.3.1 Significado do termo poder
1.3.2 Possibilidades alternativas e o indeterminismo
1.4 Importância do livre-arbítrio: responsabilidade última
1.5 Possibilidades alternativas e responsabilidade última
1.6 Ações autoformadoras
1.7 Responsabilidade moral na visão libertária de Kane
1.8 Críticas à teoria libertária
1.8.1 Críticas sistêmicas
1.8.2 Críticas ao papel do indeterminismo
1.9 Algumas conclusões sobre a posição libertária para a responsabilidade moral
2 O semicompatibilismo
2.1 Responsabilidade moral e determinismo
2.1.1 Os casos de Frankfurt
2.1.2 A estrutura dos casos de Frankfurt
2.1.3 Defesa do dilema e a via indeterminista
2.1.4 Defesa do dilema e a via determinista
2.1.5 Semicompatibilismo e a via indeterminista
2.1.6 Semicompatibilismo e a via determinista
2.2 Responsabilidade moral e o controle de orientação
2.2.1 Responsividade a razões e determinismo
2.2.2 Mecanismo responsivo a razões
2.2.3 Mecanismo moderadamente responsivo a razões
2.3 Controle de orientação e indeterminismo
2.4 Posse do mecanismo e atitudes reativas
2.4.1 Aprendendo e assumindo responsabilidade
2.4.2 Responsabilidade moral e identidade pessoal
2.5 A ação livre segundo o semicompatibilismo
3 O incompatibilismo forte
3.1 O incompatibilismo de origem e a história causal
3.2 Merecimento básico e teorias libertárias
3.3 Casos de manipulação e o compatibilismo
3.4 Responsabilidade moral sem livre-arbítrio
3.5 Objeções ao incompatibilismo forte de Pereboom
3.5.1 As causas da eliminação de responsabilidade
3.5.2 Atribuição de responsabilidade sem culpa
3.5.3 O argumento do zigoto
3.5.4 Manipulação local, manipulação global e o determinismo
3.6 Caminhos para o semicompatibilismo
4 A responsabilidade moral e a autoria de ações
4.1 Revisando conceitos
4.2 Revisitando o controle de orientação
4.2.1 Autoria de ações
4.2.2 Atribuição de culpa e adequação
4.3 Entre o controle libertário e o compatibilista
4.4 Entre a responsabilidade moral compatibilista e a incompatibilista forte
4.5 A responsabilidade moral segundo o semicompatibilismo
Conclusão
Referências
Fernando Ruiz Rosario é mestre (2018) e doutor (2023) em Filosofia pela UFMG e bacharel pela UFSCar (2013). Sua dissertação discorreu sobre o problema da verossimilhança no falsificacionismo de Karl Popper, estando vinculada à linha de Lógica, Ciência, Mente e Linguagem. Sua tese, vinculada à linha de Ética e Filosofia Política, abordou o livre-arbítrio e a responsabilidade moral sob uma perspectiva semicompatibilista. Atualmente, é professor EBTT no IFMG – Campus Ibirité.
Título: Responsabilidade moral e livre-arbítrio: o semicompatibilismo e a autoria de ações
Autor: Fernando Ruiz Rosario
Editora: Ed. PPGFIL-UFMG
Páginas: 319
Formato: PDF
ISBN: 978-65-02-32403-5
DOI: 10.5281/zenodo.22166588