“A honorável e respeitada escola estoica foi provavelmente a tradição de maior influência no Mediterrâneo do período helenístico grego e imperial romano e dificilmente encontraremos estudiosos dispostos a caracterizá-los simplesmente como loucos (a não ser, talvez, os céticos, claro). Por que então, quando Cavendish propõe uma matéria animada que a tudo pervade, que é dotada de movimento próprio, que é origem última de tudo o que se move e da racionalidade que ordena o cosmos, sua doutrina é desmerecida inclusive de valor histórico e remetida às fantasias incontroláveis de uma mulher insensata? Essa foi uma doutrina defendida, com suas devidas proporções, pelos filósofos mais respeitados do século III, II e I AEC, e dos séculos I e II da era comum, além de ter influenciado pensadores dos séculos subsequentes tendo até uma influência considerável em intelectuais da modernidade”.
Matheus Tonani Marques Pereira
Aceito os Termos de uso e condições.
O livro debruça-se sobre os textos de epistemologia e filosofia natural de Margaret Cavendish, pensadora e literata inglesa do século XVII, buscando empreender paralelos entre a sua teoria e a teoria do primeiro estoicismo grego do período helenista. Busca-se defender que, na física e na gnosiologia cavendishiana de maturidade, podemos ler, com muitos ganhos hermenêuticos, uma influência considerável da primeira stoá. Analiso a filosofia do conhecimento e da natureza de Zenão, Cleantes e Crisipo, comparando com o pensamento da duquesa filósofa, além de apresentar importantes consequências interpretativas da tese que defendo, ao mostrar que, ao ler nas entrelinhas da pensadora moderna uma influência estoica, podemos compreender de maneira mais completa sua investida contra os experimentos mediados por instrumentos óticos. Ademais, a viabilidade histórica de tal influência é analisada, de modo que busco mostrar que todos os tópicos relevantes do pensamento do pórtico estão presentes na História da Filosofia de Thomas Stanley, que Cavendish afirma ter estudado. É por fim também defendido nestas páginas que o sistema intelectual da pensadora britânica moderna deve ser levado a sério e possui uma robustez filosófica considerável, contrariando as leituras que querem ver em Cavendish somente a designação de uma “Mad Madge”.
1. Filosofia natural e gnosiologia em Cavendish
1.1. Corpus filosófico-científico
1.1.1. 1653, [1664 e 1668]: Poemas e fantasias e Fantasias filosóficas
1.1.2. 1655 e 1663: Opiniões físicas e filosóficas
1.1.3. 1664, 1666 e 1668: Cartas filosóficas, Observações sobre filosofia experimental, O mundo resplandecente e Fundamentos de filosofia natural
1.2. Filosofia da natureza e do conhecimento
1.2.1. Ontologia: o triunvirato da matéria
1.2.2. Cosmologia: ordenamento cósmico e causalidade
1.2.3. Epistemologia: desantropomorfização do conhecimento e o papel da percepção
Unidade 1. Lógica
2. Teoria do conhecimento estoica7
2.1. Estudos sobre o estoicismo ateniense: preleções historiográficas
2.2. Phantasía katalēptikḗ: Zenão de Cítio
2.3. Pórtico versus Academia: Zenão e Arcesilau
2.4. Cleantes, Crisipo e as interpretações da phantasía
Notas concludentes
3. Epistemologia cavendishiana e aproximações com o estoicismo
3.1. A percepção ativa como postulado físico-epistêmico
3.2. Assentimento, teoria da dupla percepção e percepção racional
3.3. Percepção regular e phantasía katalēptikḗ
Notas concludentes
4. Traços de uma filosofia da ciência neoestoica
4.1. O pano de fundo estoico da crítica à filosofia experimental
4.1.1. A filosofia experimental e a Royal Society of London
4.1.2. As Observações (1.3) e sua crítica à filosofia experimental
4.1.3. Percepção natural e regular, phantasía katalēptikḗ e a crítica neoestoica aos instrumentos óticos
4.2. Supremacia da natureza sobre a arte e o “viver conforme a natureza”
Notas concludentes
Unidade 2. Física
5. Física estoica
5.1. Ontologia: tò ón versus tó ti e os incorpóreos
5.2. Cosmologia
5.2.1. Princípios, elementos e completa mistura
5.2.2. Vitalismo, princípio corpóreo divino imanente e ordenação e coesão cósmicas
5.3. Mecânica: causalidade e destino
Notas concludentes
6. Influência estoica na física de Cavendish
6.1. Ontologia
6.1.1. Posicionamentos e argumentos antiatomistas
6.1.2. Vazio e lugar
6.2. Cosmologia
6.2.1. Triunvirato da matéria e completa mescla
6.2.2. Princípios constitutivos da natureza e teoria da mistura
6.3. Mecânica e causalidade
Notas concludentes
Unidade 3. História
7. Thomas Stanley e o acesso de Cavendish ao estoicismo
7.1. Thomas Stanley e a História da filosofia
7.2. Epistemologia estoica
7.3. Física estoica
Notas concludentes
Considerações finais
Referências Bibliográficas
Matheus Tonani é licenciado, mestre e doutor em Filosofia pela UFMG, com ênfase em história da filosofia. Bolsista de pós-doutorado pela CNPq, trabalha atualmente com a relação entre a filosofia antiga e a filosofia moderna, com interesse especial na produção filosófica histórica de mulheres. Foi professor substituto na UFMG e no IFMG, nos ensinos superior e médio, além de ter também lecionado filosofia e língua inglesa em redes privadas. Apaixonado pela escrita e pela docência nas letras filosóficas, busca revisitar a história da filosofia clássica com outros olhos e recuperar algumas vozes de pensadoras e pensadores menos costumeiramente ouvidas nas últimas décadas da área.
Título: Influências estoicas na filosofia de Margaret Cavendish
Autora: Matheus Tonani Marques Pereira
Editora: Ed. PPGFIL-UFMG
Páginas: 442
Formato: PDF
ISBN: 978-65-01-31991-9
DOI: 10.5281/zenodo.14984098